O INSS VAI ACABAR? Por que você pode ter que trabalhar mais para se aposentar

Imagine um Brasil onde quase 40% da população tem 60 anos ou mais.

É isso que o IBGE projeta para 2070.

E existe um problema: quem vai financiar as aposentadorias?

O próprio governo já reconhece a pressão que essa mudança vai colocar sobre o INSS.

E você precisa entender o que está acontecendo

A aposentadoria de hoje depende, em grande parte, da capacidade da sociedade de hoje financiar seus aposentados.

No Brasil, o principal regime previdenciário dos trabalhadores privados, o RGPS, funciona predominantemente pelo chamado regime de repartição ou pay-as-you-go.

Isso significa, simplificando, que as contribuições arrecadadas da população economicamente ativa ajudam a financiar os benefícios pagos naquele período aos aposentados e demais beneficiários.

A própria OCDE descreve o RGPS brasileiro como um sistema obrigatório financiado por repartição, com contribuições sobre salários e complementação do governo quando necessário.

E isso é exatamente o problema.

O mundo está tendo menos filho, inclusive no Brasil

Um grande estudo publicado em 2024 na The Lancet, baseado no Global Burden of Disease, analisou 204 países e territórios entre 1950 e 2021.

A taxa global de fecundidade caiu de aproximadamente:

Filhos por mulheres no Mundo

4,48 filhos19502,23 filhos20211,83 filhos20501,59 filhos2100

A chamada taxa de reposição populacional costuma ficar próxima de 2,1 filhos por mulher, embora varie ligeiramente conforme mortalidade e outras características demográficas.

No Brasil, a mudança está acontecendo muito rápido

Filhos por mulheres no Brasil

BrasilReposição2,32 filhos2,120001,57 filhos2,12023

O IBGE projeta que a população brasileira pare de crescer por volta de 2041.

Isso significa que estamos nos aproximando do fim de um fenômeno que acompanhou praticamente toda a vida das gerações atuais: um Brasil continuamente aumentando sua população.

Mas por que ninguém quer ter filhos?

O relatório State of World Population 2025, do Fundo de População das Nações Unidas, entrevistou pessoas em 14 países que representam mais de um terço da população mundial.

Cerca de 1 em cada 5 pessoas em idade reprodutiva acredita que não conseguirá ter o número de filhos que gostaria.

Entre os fatores apontados aparecem custo de vida, insegurança no trabalho, habitação, dificuldade de encontrar um parceiro adequado e medo em relação ao futuro.

Há ainda outros fatores estudados pela literatura: maior escolarização feminina, participação das mulheres no mercado de trabalho, disponibilidade de contraceptivos, adiamento do casamento e da maternidade, instabilidade econômica, custo da moradia, mudanças culturais, dificuldade de conciliar carreira e família e maior investimento dos pais em cada filho.

Enquanto nascem menos brasileiros, vivemos cada vez mais

Esse é o segundo lado da equação.

Entre 2000 e 2023, a proporção de brasileiros com 60 anos ou mais passou de aproximadamente 8,7% para 15,6%.

O IBGE estima que, em 2070, aproximadamente 37,8% da população brasileira terá 60 anos ou mais.

E existe um documento ainda mais importante para a nossa pauta: a própria Projeção Atuarial do RGPS apresentada pelo Ministério da Previdência no PLDO 2027, publicada em abril de 2026.

O governo escreve literalmente que a redução persistente da fecundidade, o aumento da longevidade e o encolhimento futuro da população economicamente ativa provocarão pressão adicional sobre o sistema previdenciário.

AnosReceita/PIBDespesa/PIBDéficit/PIB.
20265,77%8,26%2,49%
20506,44%10,23%3,79%
20606,4%11,94%5,54%
20706,37%13,26%6,89%
21006,35%16,76%10,41%

Então o INSS vai “quebrar?

A situação é, de fato, complexa: o envelhecimento da população, a queda da taxa de fecundidade e o aumento da longevidade criam pressão sobre o equilíbrio financeiro do sistema.

Contudo, isso não significa que o INSS vá desaparecer; indica que serão necessários ajustes graduais, seja nas regras de contribuição, na forma de cálculo dos benefícios ou em políticas de incentivo à natalidade.

O objetivo é preparar a sociedade para as mudanças, mantendo o debate informado e equilibrado.

Aliás, o Brasil já passou por grandes reformas previdenciárias, sendo a Emenda Constitucional 103/2019 uma delas.

A solução dos últimos 20 anos foram as reformas previdenciárias

EC 20/1998 - Governo Fernando Henrique Cardoso

  • Extinguiu a aposentadoria proporcional para novos segurados do INSS.

  • Antes, essa modalidade permitia aposentadoria com 25 anos de serviço para mulheres ou 30 para homens, com benefício reduzido.

  • Criou regras de transição com idade mínima e períodos adicionais de contribuição, conhecidos como pedágios.

  • Reforçou a lógica de tempo de contribuição em substituição ao tempo de serviço.

EC 41/2003 - Governo Luiz Inácio Lula da Silva

  • Afetou principalmente os servidores públicos.

  • Alterou o cálculo das aposentadorias, afastando a integralidade e a paridade automáticas para novos servidores, preservadas situações específicas.

  • Instituiu contribuição previdenciária sobre parcelas de aposentadorias e pensões acima dos limites legais.

  • Estabeleceu novos requisitos e transições, incluindo reduções de benefícios em determinadas aposentadorias antecipadas.

EC 103/2019Governo Jair Bolsonaro

  • Estabeleceu idade mínima geral de 62 anos para mulheres e 65 para homens no INSS.

  • Extinguiu, para novos filiados, a aposentadoria comum exclusivamente por tempo de contribuição, sem idade mínima.

  • Exigiu pelo menos 20 anos de contribuição para homens que ingressaram após a reforma e 15 para mulheres.

  • Alterou a fórmula de cálculo dos benefícios.

  • Criou regras de transição, incluindo pedágios de 50% e 100%.

Se você tem 20, 30 ou 40 anos

Talvez você receba aposentadoria do INSS daqui a 30 anos.

O problema é que ninguém hoje consegue garantir qual será a idade, a regra ou a relação entre esse benefício e a renda que você deseja ter.

A Previdência pública pode continuar sendo uma camada importantíssima de proteção social.

Mas a pessoa pode construir uma segunda aposentadoria, formada pelo próprio patrimônio.

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